Sim, eu já fui!



Quando minha família se mudou da cidade de Porto Alegre para Santo Ângelo, para mim foi uma fase difícil. Lembro-me de ter sido levado por minha mãe a uma psicóloga, quando eu tinha por volta de 11 ou 12 anos, e não era atoa as razões para se preocupar comigo. Embora eu não estivesse entendendo o que estava acontecendo na época, hoje tenho noção do que se passou, e porque me levaram em uma psicóloga.
Minha infância em Porto Alegre era aparentemente normal, e só tenho boas lembranças dessa época. Nada há em minha memória de algum evento traumático ou negativo que possa ter afetado minha personalidade e caráter. Como tenho saudades desses dias de minha vida. Porém as coisas mudaram na nova cidade.
O primeiro impacto foi ter que deixar para trás amigos de anos que eu tinha feito na escola e na vizinhança de casa, e justamente em época de férias escolares, ou seja, eu não consegui me despedir de meus amigos e de meus colegas da escola. Eu fiquei sentido com isso, mas logo deixou de ser algo que incomodava. O segundo impacto foi o choque cultural, de um menino da capital, com 9 anos, inocente em muitos aspectos da vida, ter que lidar com garotos de uma cidade do interior, moradores de um bairro que ainda estava em surgimento e crescendo, na periferia, e que estavam extremamente sexualizados.
Lembro bem de meu pai comentar que ao chegarmos na cidade, ele notou que o estilo musical predominante eram as bandinhas, que só tocavam músicas com letras falando de sexo e traição, o que o incomodava, pois era admirador da música nativista gaúcha, que fala da vida do homem no campo, na lida com os animais, e dos valores familiares. O que eu penso é que as crianças de Santo Ângelo estavam sexualizadas por justamente seus pais serem adeptos desse tipo de música que incentivava principalmente a traição, mas que tinham um forte apelo sexual, além de serem incentivados por seus pais a agirem de forma machista, onde até mesmo o linguajar desses garotos era pervertido.
            Em minha casa, nunca fui ensinado por meu pai e minha mãe a ser um menino bagaceira, pervertido, maroto e que deveria fazer gestos obscenos para outras pessoas. Também não fui criado para ser machista, embora meu pai as vezes agisse assim. Por ser diferente dos demais meninos, tive dificuldade de fazer amigos, e passei a ser alvo de bullyng, quando essa palavra ainda não existia. Eu era chamado de bixinha, florzinha, e outros adjetivos do tipo pelos meninos da escola, não apenas os colegas de minha turma, e para piorar tudo, eu era muito ruim para jogar futebol (e ainda sou). E você já viu, pois a ideia que se tem é que todo menino deve saber jogar futebol, se não é porque tem algo de errado.
            Fiquei isolado, passava a maior parte do tempo em casa assistindo televisão, e adentrando na adolescência, ainda era eu muito infantil. Eu preferia ficar em casa do que ter que lidar com as chacotas dos demais garotos. Além disso, as coisas dentro de casa também haviam mudado, e passei pelos piores dias de minha vida, e justamente na puberdade, quando a cabeça da gente fica desorientada com tanta coisa nova que passamos a ser obrigados pela vida a ter que lidar. Depois de dois anos em uma escola, fui transferido para outra, aos 12 anos, mas as coisas continuaram, pois continuei sofrendo bullyng de meus novos colegas, e também de meninos de outras turmas, pois eles percebiam que eu era diferente. Foi a faze mais difícil, pois recebi um apelido que demorou muito para eu me livrar, e que impediu de eu fazer amigos: Lacraia.
            Talvez você não saiba, ou não lembre, Lacraia era o nome artístico utilizado por um dançarino de funk, que se apresentava junto com o MC Serginho, e que nesta mesma época ficou famoso após aparições na TV, com a música que estava fazendo sucesso chamada “Vai Lacraia!”. A letra da música, e a coreografia do dançarino, aliado ao seu tipo físico, davam a entender que ele era gay, e ao colocar esse apelido em mim, estavam querendo dizer que eu era homossexual. Imagina qual era o garoto, no início dos anos 2000, que ia querer ter um gay como amigo, mesmo sem ter certeza se de fato eu era ou não. Ninguém na escola sabia ou tinha provas de que eu era o que eles diziam que eu era, e mesmo negando, o bullyng não parou até eu terminar o ensino médio, com 17 anos. Agora eu entendo porque eu fui levado em uma psicóloga. Eu havia me isolado, deixado de ser aquele guri alegre e brincalhão que eu era quando criança, e isso deixou minha mãe preocupada. Porém foram poucas consultas ao especialista, e a terapia, que poderia ter me ajudado, não foi adiante.
            Embora os meus colegas e os outros meninos das duas escolas que eu estudei, e a garotada do bairro que eu morava não soubessem, e não tivessem provas, e eu tentava esconder deles e negava sempre, sim, eu tinha tido experiências sexuais com outros meninos, mas que não eram de nenhum desses lugares. Não lembro direito quando e como começou, mas foi por volta dos meus 10 e 11 anos que eu tive uma relação sexual com outro menino, ou pouco mais velho, mas consentido. Não lembro porque eu fiz, mas que foi por curiosidade, e como todos me chamavam de bixinha, de viadinho, eu devo ter acreditado que eu era assim, mas na verdade não sei explicar o real motivo. Mas não foi uma única vez, tive outras experiências sexuais, a última quando eu tinha 18 ou 19 anos.
            Porém, mesmo tendo tido relação sexual mais de uma vez com meninos, eu tinha consciência do que eu queria para minha vida: namorar com uma menina, casar com uma mulher e constituir uma família, eu não queria admitir assumir ser homossexual ou bissexual, já que durante esse período eu também me relacionei afetivamente com meninas, embora até hoje não tenha eu tido experiência sexual com elas. Só que eu perdi um pouco do controle, e os desejos por rapazes foram ficando mais fortes, e muitas vezes eu me insinuei para outros garotos a fim de tentar ter uma relação sexual com eles, mas não deu certo, porém, isso ainda não tirava da minha cabeça o que eu queria. Eu estava determinado a não assumir esse estilo de vida, embora eu estivesse gostando, e que eu queria construir meu futuro ao lado de uma mulher.
            Aos 21 anos tive meu último namorico com uma menina, e desde então não tive mais nenhum relacionamento com mulheres, e nem mesmo sexual com elas ou com homens. Aos 23 anos fui batizado na Igreja Adventista do Sétimo Dia, onde pude conhecer mais a Deus de uma forma diferente, que eu não conhecia antes. O mais engraçado disso, se é que tem algo engraçado nessa história que eu acabei de narrar, é que quando criança não acreditava muito em Deus, mas por gostar de um menino que era colega de catequese de minha irmã, e para tentar ficar próximo dele e tê-lo como amigo, embora tivesse uma segunda intenção, eu também fiz a catequese, e essa experiência me aproximou mais da religião, e assim não me tornei ateu. Agora, conhecendo a Bíblia, e crendo que ela é a Palavra de Deus, e expressa a Sua vontade para a humanidade, entendo que o homossexualismo é pecado, mas que mesmo incorrendo nesse erro, Deus continuou me amando, e pacientemente foi me conduzindo para que eu pudesse abandonar essa prática.
            Não vou dizer que é fácil ser cristão, ainda mais se você nasceu e cresceu em um lar onde os princípios cristãos não são tão valorizados como em uma família evangélica. Eu ainda sofro tentações, o desejo pelo pecado ainda está mim, além de todas as memórias das vezes que eu tive relações sexuais com homens que vem à tona em minha mente, mas eu luto para contê-los e para não ser dominado por eles. Ah se eu pudesse voltar ao passado! Diria para mim mesmo para nunca ter contato sexual com homens, mesmo que estivesse com vontade, pois no futuro sentiria um amargo arrependimento. Graças a Deus estou conseguindo lidar, ou eu acho que estou conseguindo lidar com isso. Nessa hora eu me lembro do que o apóstolo Paulo escreveu em Romanos 7:

“Eu não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer. Pelo contrário, faço justamente aquilo que odeio. Se faço o que não quero, isso prova que reconheço que a lei diz o que é certo. E isso mostra que, de fato, já não sou eu quem faz isso, mas o pecado que vive em mim é que faz. [...] Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é que eu faço. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem faz isso, mas o pecado que vive em mim é que faz. [...] Dentro de mim eu sei que gosto da lei de Deus. Mas vejo uma lei diferente agindo naquilo que faço, uma lei que luta contra aquela que a minha mente aprova. Ela me torna prisioneiro da lei do pecado que age no meu corpo” (Romanos 7:15-23, NTLH).

            Você consegue perceber o que Paulo escreveu? Ele sofria, pois, lutava contra algo em seu interior, que tentava dominá-lo, mas ele tentava oprimir. É justamente assim que eu me sinto. Eu sei o que é certo embora eu ainda seja tentado a fazer o que eu sei que não é certo. Essa luta é diária e todo cristão convertido passa por isso. Comigo é o homossexualismo, mas para outra pessoa pode ser outra coisa, um vício por exemplo. O meu dilema é esse: “Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte”? (Romanos 7:24, NTLH). Eu poderia ser infeliz por estar nessa luta interna, mas não, não sou infeliz, sabe por que? “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Romanos 7:25, RA). Embora dentro de mim o pecado esteja gritando para que eu o deixe sair para fora, na minha mente está a lei de Deus, e mesmo tendo errado em minha vida, “agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:1 e 2, RA).
            Mas o que eu quero ao contar algo tão íntimo de minha vida, assim, publicamente? Eu quero que seja um testemunho do que Deus tem feito em minha vida, e que Ele poderá fazer na sua! Não quero continuar a me esconder, embora o passado seja embaraçoso, pois eu sei que posso fazer um novo futuro. Se você que está lendo sofre ao lutar contra um pecado que está encrustado no seu coração, e está dominado como um escravo dele, saiba que Jesus pode te libertar, e te livrar da condenação desse mal, apenas o aceite como seu Salvador! E se você conhece alguém que passa por isso, não o discrimine, não o condene, mas o ame como Cristo lhe ama, e ajude essa pessoa carente de Deus a sair da prisão do pecado.

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